Soltar a moça ou prender os curadores?
Texto de Affonso Romano de Sant’Anna
“Pergunta-se: que autoridade têm seus professores, que autoridade têm os curadores para exigir a punição e prisão deles?”
A moça se chama Pivetta (Caroline Pivetta da Mota) e está presa como pivete. Coincidência? Fatalidade do nome? Ou retrato sintomático de nossa época?
Ela tem 23 anos e se considera artista. A polícia acha que ela é marginal porque não tem endereço fixo nem profissão, senão uma vaga alegação de “artesã”. O fato é que ela, com um grupo de 40 colegas, invadiu a Bienal de Arte de São Paulo para pichar as paredes brancas do histórico prédio do Niemeyer. Quando a polícia chegou, houve corre-corre, quebradeira, e ela foi a única que ficou presa. Presa há mais de 40 dias.
Vamos analisar a questão. Faço uma sugestão radical. Os advogados deveriam convocar como testemunhas de defesa os próprios acusadores da moça. Exatamente. Não apenas os curadores desta bienal, mas os curadores das anteriores também. Eles são peças fundamentais na liberação dessa jovem vítima.
Os curadores desta (e de outras bienais) sempre fizeram a apologia da “transgressão”. Há 100 anos a arte vive (e morre) disso. O aspirante a artista nem sabe desenhar, pintar, esculpir e recebe nas escolas de arte oficiais ordem para destruir o desenho, a pintura, a escultura ou qualquer tipo de arte. Materializou-se aquela piada: “Hay govierno, soy contra” (é arte, sou contra).
A referida Pivetta faz parte de um grupo de grafiteiros que anteriormente havia pichado a Faculdade de Belas Artes da USP e a galeria Choque Cultural. Vejam o imbroglio, a própria galeria tem esse nome, Choque Cultural. Chocante. Uma bienal anterior tinha como slogan esse papo de que não existem “fronteiras” entre arte e não-arte. Esses jovens, portanto, crescem numa cultura que mitifica a “marginalidade”. Elogia a falta de “limites” e os incita a aparecer a qualquer preço. A pessoa nem sabe onde está a lei, mas já quer transgredir. E aqueles ingênuos jovens foram radicais; aliás, acharam que estavam sendo radicais: picharam a própria escola e galeria. Pergunta-se: que autoridade têm seus professores, que autoridade têm os curadores para exigir a punição e prisão deles?
A posição dos acusadores é insustentável. Eles mesmos não só alardearam que iam fazer uma bienal transgressora, tão transgressora que deixariam um espaço transgressor “vazio”, mas iam convidar artistas e teóricos para debater e fomentar a “transgressão”. Então, pergunta-se: há dois tipos de transgressão, a oficial e a proibida? Por que a transgressão oficial – a bienal que custou US$ 9 milhões (ou R$?) do nosso bolso é melhor que outra? Quem é dono da transgressão?
Estou colocando em linguagem simples um assunto complexo, que em psicologia e lingüística se chama “double bind”, pois isso aqui é uma crônica e não um ensaio. Mas essencialmente quero dizer que a questão está mal colocada. Estão discutindo detalhes, sem uma visão de conjunto. É um horror ler que “há uma certa pressão dos organizadores da bienal” para manter a moça presa. Os curadores também são réus. Vamos encarar de frente o problema, tenhamos coragem de analisar os equívocos de grande parte da arte do século 20. No mundo todo estão surgindo teóricos que analisam a “irresponsabilidade estética” e a “estética da irresponsabilidade”.
Enfim, é fácil jogar a culpa sobre a Pivetta de plantão. Mas a confusão que está na cabeça dela e dos curadores é a repetição de um episódio que tem acontecido em outros países na fronteira entre arte & crime. E as questões da arte em nossa deteriorada pós-modernidade se tornaram tão complexas que escapam à compreensão dos críticos de arte oficiais.
O que está em julgamento não é a indigitada Pivetta. O que deve estar em julgamento é todo um conceito de arte e cultura que está esgotado e pateticamente “vazio”, como essa lamentável bienal que se enforcou no “duplo enlace” de seus próprios dilemas.
Publicado no “Estado de Minas”/ “Correi Braziliense” 14.12.2008


Visão coesa e pertinente sobre as reais condições da arte no Brasil. Parabéns a Sant`Ana.
Eu acho na verdade que não passa de uma pessoa atingindo um bem da sociedade. O direito da moça e de qualquer pichador esbarra no direito da sociedade de ter seus bens garantidos.
É muito piegas dizer que faz em nome da sociedade oprimida, mas invade o direito de todos. A arte está em tudo e serve para expressar-se, envolver, fascinar. Não há nada de fascinante em uma pichação proibida, se querem pichar, façam nos muros de suas casas ou legalmente, pedindo autorização do poder público. As paredes da bienal são um bem de toda população e não podem ser invadidos alegando qualquer tipo de arte. Sou contra qualquer pichação que não seja de certa maneira autorizada. É ato de vandalísmo e perde a característica de arte.
Na minha opinião acredito que ela deve ser julgada e pagar pelos danos a sociedade, como qualquer cidadão de bem.
Concordo que a arte contemporânea perde muito do senso estético na ânsia de ‘transgredir’ ou de formar um novo conceito (desconceitualizado) de arte. Em parte, podemos dizer que essa ambição libera a ‘criatividade’ dos não-artistas, e qualquer coisa ruim poderia então ser julgada como mal interpretada pelo espectador.
Mas não sejamos hipócritas. Caso de pichação, grafite, seja lá o que for, é crime, e ponto final. Pichar um muro, público ou privado, sem a autorização competente, não pode ser tomado como ‘livre expressão’, ‘protesto’. Se o que é feito, desenhado no muro, é algo artístico ou não, isso é independente da atitude de legalidade ou ilegalidade. Quem picha sabe muito bem disso, tanto que buscam sempre os lugares mais proibidos e visíveis. EU, pessoalmente, prefiro meu muro branco do que pintado pelo melhor grafiteiro do mundo. E se alguém viesse sujar meu muro, eu o denunciaria e o faria limpar. Respeito é o que vale. Que essa moça sirva de mártir aos grafiteiros, mas que sirva também de exemplo de desrespeito a não mais ser seguido.
Recebeu hoje habeas corpus, graças a Deus e a tantas pessoas que se manifestaram contra sua prisão absurda. Grande texto!